4. ECONOMIA 26.9.12

O PARADOXO DOS CARTES
Governo e empresas discutem como reduzir as taxas sem acabar com o parcelamento sem juros.
ANA LUIZA DALTRO

     O nmero de cartes de crdito emitidos no Brasil dobrou nos ltimos cinco anos. Existem hoje quase 180 milhes deles em circulao, praticamente um para cada habitante. No ano passado, as transaes feitas com eles movimentaram 426 bilhes de reais. As vantagens dos cartes so muitas. Alm de o seu uso ser muito mais seguro do que carregar altas somas em dinheiro ou tales de cheques, eles restringem a sonegao. Para os lojistas, a venda com o chamado dinheiro de plstico elimina o risco da inadimplncia. No Brasil, porm, os juros elevados do credirio deram aos cartes uma particularidade: a possibilidade de parcelar em diversas vezes a compra de um bem, em alguns casos em at dezoito vezes, sem juros. Essa foi a maneira encontrada pelos bancos e pelas operadoras de carto para conquistar um espao antes ocupado pelos cheques pr-datados.
     Dividir a aquisio de um aparelho eletrnico ou de materiais de construo em diversas vezes no carto  uma vantagem para os consumidores (que evitam os juros do credirio) e para as lojas que no ficam expostas a eventuais calotes). Metade do volume gasto atualmente com os cartes de crdito  de compras parceladas. Quem cobre as perdas, no caso da inadimplncia dos consumidores, so os bancos emissores do cartes. Essa  a razo principal, segundo as instituies financeiras, de outra particularidade brasileira: os juros elevadssimos do crdito rotativo. Segundo dados do Banco Central, aproximadamente 10% do valor total das faturas no  pago no prazo e, por isso, cai no rotativo. Dessas dvidas, 28% no so quitadas em noventa dias. A inadimplncia elevada, segundo os bancos, empurra as taxas de juros para o alto. O financiamento dos cartes  o dinheiro mais caro do mercado. Um brasileiro chega a pagar em juros, num nico ms, o que americanos e europeus desembolsam em um ano. Tem-se a um exemplo de como as distores existentes na economia brasileira acabam por criar novas distores. Os bancos s podem oferecer a vantagem do parcelamento sem juros, um recurso para driblar o custo elevado do credirio, cobrando taxas pesadssimas dos inadimplentes. Afirma Fernando Teles, diretor de cartes do Ita Unibanco: Se no houvesse o parcelamento, a taxa mdia efetiva de juros de todas as vendas seria de 2,5% ao ano, Em outras palavras, os juros do rotativo servem no s para cobrir o alto ndice de insolvncia (28%. contra 3% nos EUA), mas tambm para tornar possvel o parcelamento sem acrscimo.
     Formou-se, no entanto, um ciclo vicioso, em que os juros so altos por causa da inadimplncia elevada, mas os juros altos dificultam o pagamento das dvidas atrasadas e mantm a inadimplncia elevada. A questo entrou na lista de prioridades do governo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, classificou os juros de escorchantes. Sua equipe, em conjunto com tcnicos do Banco Central, est discutindo com executivos do sistema financeiro para encontrar uma maneira de reduzir as taxas e, assim, estimular o aumento do consumo. Mas, como em outras distores na economia, no haver sada simples. Recentemente, o BC elevou o pagamento mnimo da fatura de 10% para 15%. O governo avaliou a possibilidade de aumentar esse porcentual para 20%, mas, por ora, a medida est descartada. Seu efeito, no curto prazo, seria dificultar ainda mais o pagamento dos dbitos. Outra opo seria limitar o nmero das parcelas sem juros. Nesse caso, poderia haver duas consequncias adversas: a queda nas vendas do comrcio e o ressurgimento dos pr-datados. Qualquer transio ter de ser feita com extrema cautela, afirma o presidente de um dos maiores bancos do pas. Refora o presidente de uma das principais operadoras de carto: Extinguir o parcelamento, agora, seria um retrocesso. Levar anos para o pas se livrar de mais essa distoro.
     Enquanto isso, o governo tenta usar os bancos pblicos para forar a queda nos juros. A Caixa e o Banco do Brasil, assim como haviam feito com o cheque especial, reduziram as taxas de seus cartes para perto de 5%. O risco, nesse caso,  de eventuais perdas operacionais desses bancos serem cobertas pelo Tesouro Nacional, com o dinheiro dos contribuintes brasileiros.

A armadilha do dinheiro fcil
Os cartes ganharam popularidade no Brasil por causa dos programas de pontos e da facilidade em parcelar as despesas. Mas us-los como forma de financiamento pessoal pesa no bolso.
Fontes: Banco Central e Associao Nacional dos Executivos de Finanas, Administrao e Contabilidade (Anefac)

TIPOS DE FINANCIAMENTO
Taxa de juros ao ms
Consignado (desconto em folha): 2%
Emprstimo pessoal (bancos): 3,5%
Emprstimo pessoal (financeiras): 7,7%
Cheque especial: 8%
CARTO DE CRDITO (rotativo): 11%

COMPARAO INTERNACIONAL
Taxa de juros mdia do crdito rotativo, ao ano
EUA: 16%
Europa: 16%
Colmbia: 29%
Mxico: 33%
Chile: 54%
BRASIL: 238%

COM REPORTAGEM DE BIANCA ALVARENGA


